Helles bock, bock, doppelbock, belgian blond Ale, dubbel e tripel, e as escolas alemã e belga de cerveja, num estudo comparado.
Enviado em 22 de Abril de 2008
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Longe de querer esgotar a discussão, escrevo este artigo muito mais pra instigar os leitores à reflexão, pra que dêem suas opiniões, e debatendo favoreçamos, quem sabe, ao clareamento das idéias.
Vocês já viram ales bock? Já ouviram dizer que a tripel Karmeliet é tripel por contar em sua receita com três tipos de maltes ou de grãos? Posso fazer uma tripel lager, com três maltes? Uma bock dubbel seria o mesmo que uma doppelbock?
Aposto que muitos de nós já ouvimos tais perguntas, por vezes até as fazendo, sem contudo chegarmos a nenhuma conclusão definitiva. Eu sou um dos que pensaram bastante sobre o assunto, e vira e mexe sou perguntado a respeito, mas confesso que morro de dúvidas, e só me arrisco a dizer que tal imbróglio é devido principalmente por confusão entre as escolas cervejeiras alemã e belga. Explico, sucintamente, ou nem tanto:
A escola alemã se caracteriza pelo tradicionalismo e quadradismo, não aceitando ela muitas inovações, seja de ingredientes, de métodos de produção ou de estilos. Daí até hoje a eficácia da Reinheitsgebot, Lei de Pureza Alemã, que desde 1516 preconiza que a cerveja deve conter apenas água, malte e lúpulo. A única modificação nesta lei, até os dias atuais, foi a inclusão do malte de trigo. Reparem que a importância do fermento é esvaziada, e não é de se estranhar que as cervejas alemãs têm em suas mais marcantes características o malte e o lúpulo, não sendo muito determinantes os fermentos, na maioria neutros, produzindo cervejas pouco esterificadas. Não estou aqui desmerecendo a tradição e cultura cervejeira alemã, o que seria impossível pra mim, até porque é a minha predileta, mas todos sabemos que ela é a mais conservadora de todas. Os estilos clássicos da escola germânica também são poucos, se comparados com outras escolas, e de fácil compreensão e memorização: entre outros, dos mais famosos, de ale temos as Weizen, a Düsseldorf Altbier e a Kölsch, enquanto que de lagers temos o German e Bohemian pílsen, munich dunkel, Schwarzbier, oktoberfest, vienna, Helles bock, tradicional bock e doppelbock, sendo esses três últimos os que por ora nos interessam. Falemos deles, então.
Todos os três são lagers e bocks, residindo a diferença, principalmente, no extrato original. Para aqueles que não sabem, coloquialmente, o extrato original (OG) mede a quantidade de açúcares presente no mosto cervejeiro, mistura açucarada resultante da extração dos açúcares presentes no malte da cevada, antes de se iniciar a fermentação. Via de regra, quanto maior o extrato original, maior será o teor alcoólico da cerveja, por conter mais substrato pro fermento transformar em álcool e CO2.
Se perguntarmos pra um simples alemão, então, qual a diferença entre uma bock e uma doppelbock, de cara ouviremos que a doppel é a mais forte, mais alcoólica. Se a pergunta for qual a diferença da Helles bock pra tradicional, já não ouviremos isso, mas que a helles, como diz o nome, é clara, mais clara que a bock tradicional.
Até aqui ótimo, não havendo dúvida quanto a nada até agora dito, sendo consenso geral, embora outras peculiaridades dos estilos não aqui citadas também existam.
Então tranquilamente podemos dizer que a diferença mais marcante entre a Helles e a Tradicional bock é na cor, sendo a primeira mais clara, enquanto que em relação às doppelbocks são elas mais fracas, menos alcoólicas, todas cervejas fortes de baixa fermentação.
Passemos então pra escola belga e suas Strong ales.
A escola belga é tão tradicional quanto a alemã, mas muito mais criativa que esta. Nela não há limitação de qual matéria prima usar, daí o uso de especiarias, coentro, cascas de laranja, frutas, aveia, entre outros tantos mais, além do malte de cevada, lúpulo, água e fermento. Menciono aqui o fermento, diferentemente do que fiz quando falei da escola alemã, porque o fermento pra escola belga, no meu entender, é o maior dos seus diferenciais, por ser o responsável, juntamente com as incontáveis combinações de matérias primas, pela complexidade de aromas, fénólicos, cravo, de ésteres, abacaxi, maçã, banana, frutas secas, ameixa, laranja, damasco, …, e muito mais aromas das cervejas belgas.
Diferentemente da alemã, as cervejas belgas quase todas são de alta fermentação, ales, e, pra ser do contra, poderíamos citar a Stella Artois, talvez, e alguma outra, mas pra isso fazendo uma enorme força pra lembrar.
As Strong Ales Belgas, assim como as Bocks, também são subdivididas em alguns sub-estilos, de acordo com o extrato original, sendo que, neste estudo comparado, nos ateremos a três apenas, as mais famosas, a Belgian Blond Ale, Belgian Dubbel e Tripel, traçando ao final um paralelo com Strong Lagers Alemãs.
Assim como a diferença entre a Helles Bock e a Tradicional Bock reside na coloração menor da primeira, assim se diferencia a Belgian Blond Ale da Belgian Dubbel. Segundo o BJCP, ambas possuem a mesma OG, extrato original, e são mais fracas, menos alcoólicas que a Tripels.
Mas não param por aí as coincidências.
Se formos comparar uma a uma, veremos que há muito mais em comum entre os estilos alemãs e belgas, pautando-se as diferenças mais no tipo de fermento, Lager x Ale, e no país de origem, do que qualquer outra causa.
Vejamos os quadros abaixo, cujos dados foram retirados do BJCP:
Seriam estas coincidências apenas, ou muita falta de criatividade das escolas belga e alemã pra delimitarem densidades originais pras suas cervejas fortes?
Já até vislumbro aqueles que me acusarão do uso de sofismas, pra talvez explicar o que penso, mas todos concordamos que tanto os termos dubbel e tripel, quanto bock e doppelbock, definem-se pelo extrato original. Tá bom que não somente por ele, mas principalmente. E mais, todos são estilos de cervejas fortes, alcoólicas, e, pra contrabalancear, mais encorpadas também.
Acredito que a grande confusão seja originada por uma disputa velada entre as escolas belga e alemã, não pela escola propriamente dita, mas pelos seguidores de cada uma delas. Não é raro ouvirmos de mestres cervejeiros alemães que o termo tripel se relaciona com a quantidade de maltes empregues na cerveja, coisa de belga, quem sabe pra diferenciar do parâmetro de definição por eles utilizado. Por sua vez, ouvimos de cervejeiros belgas que suas cervejas são muito mais complexas que quaisquer outras, e que tripel diz muito mais que apenas a quantidade de extrato original. E no final das contas, como não somos nem de uma, nem de outra escola, acabamos num impasse danado de nomes, quase sempre nos limitando às já consagradas nomenclaturas. Assim, se tiver mais de 6% abv, e for lager, é bock, faltando definirmos qual sub-estilo; se ale e belga for, será uma Belgian Strong Ale, também carecendo de melhor sub definição do estilo.
A briga é pra vida toda, mas sorte que ultimamente vemos quem ousa discordar, como a trapista La Trappe, que embora holandesa e muito mais afeta às cervejas belgas, não se ateve à pinimba e chamou uma de suas ales de bock. Outra que entra neste rol é a famosa Samuel Adams, que também ousou ao chamar sua lager com mais de 10% abv de Samuel Adams Triple Bock, contando ela com 17,5% de álcool por volume.
Só pra contrariar, minha próxima produção será uma Tripel bock, lager, envelhecida num barril de bourbon, e daqui a alguns meses veremos o resultado, hehehe.
Saúde,
Botto
Olá Botto,
Sou de fortaleza, apaixonado por cervejas e venho acompanhando seu trabalho a mais de seis meses através de blogs.
Fiquei feliz com o lançamento do seu blog, pois teria oportunidade de conhecer mais o trabalho de um dos mais famosos homebrewers do brasil. Agora só falta degustar suas tão premiadas e comentadas criações, e vontade é que não falta, só falta é oportunidade.
Gostei muito dessa matéria, ótima linha de pensamento, me deixou vidrado para ler até o final, mesmo sendo um texto longo. Continuando assim, você vai merececr mais espaço na mídia. Tome cuidado Edu Passarelli (Bricadeira!)
Gostaria de saber quando sua cerveja Dama no Lago vai estar disponível no mercado. Estou com muito medo de não conseguir um exemplar dela, ou alguns de preferência! Aqui na minha cidade só chegam as mais comuns. As Eisenbahns da linha seleção (Weisenbock Rauchbier e Orgânica são as que aqui chegam) são mais difíceis de encontar e são vendidas a preços mais altos, 7,50 a garrafa. Uma pena!
Continuarei a acompanhar seu blog com frequência.
Meus parabéns.
Olá, Rodrigo, obrigado pelas palavras.
Quanto à Dama do Lago, acho que daqui a uns dois meses ela deva estar nas ruas, ou pouco menos. O melhor jeito para vc daí adquiri-la, acredito ser via e-shop da Eisenbahn mesmo.
Abraço,
Botto
Olá novamente Botto,
Será que foi você que escreveu a carta de repúdio à AMBEV?
Gostei Muito! Principalmente do “Atrevimento” de convidar “os cara” (como diria um paulista) para tomar as suas produções.
Quer saber o que eu penso? Eles não merecem tomar estas cervejas tão comprovadamente boas. Penso que existem pessoas que irão valorizar muuuiiito mais um convite desses. Faz um convite pra mim, que já já eu chego por aí! Pode ter certeza de que serão muito apreciadas as suas crias!
Abraços!
Olha que não é brincadeira a conversa do convite!
Hehehe, não foi eu quem escreveu, não. Foi um grupo grande de amigos das acervas, onde cada qual colocava uma vírgula e 10 palavras.
Fica o convite desde já, quando vier ao Rio degustamos algumas.
abraço,
Botto
Bom, se não é abusar, então para quando suas cervejas em Portugal, hein?
Olá, Vdealmeida, tudo jóia? Acho Difícil chegarem em Portugal, por enquanto. É que ultimamente tenho embarrilhado quase tudo que produzo, vítima de preguiça. Mas manda seu endereço que, tão logo tenha, será um prazer lhe enviar.
abraço
Olá Botto,
que coragem em se aventurar por cervejas de OG tão alta!
Parabéns pelo artigo, gostaria apenas de expressar minha opinião a respeito da importância do fermento na cerveja alemã.
Datando de 1516 a lei de pureza alemã não poderia incluir o fermento como um dos ingredientes utilizados na produção da cerveja, já que naquela época ainda não se sabia com precisão como ocorria o processo de fermentação. As cervejas “medievais” fermentavam espontaneamente através da ação de fungus selvagems e com frequência deviam possuir um gosto muito ruim! Levaram séculos de estudo e pratica até se conseguir selecionar as cepas cervejeiras próprias para se produzir um tipo de cerveja ou outro. Nesta época também era proibido fazer cerveja durante o verão (ao menos no sul da Alemanha). Como as cervejas eram produzidas em épocas do ano quando a temperatura era mais amena (novamente no sul da Alemanha) é provavel que tais cervejas tinham um caráter de parecido com as lagers de hoje.
No entanto alguns estilos alemães como a Altbier requerem cepas extramamentes singulares para sua produção adequada.
Felipe.
Olá, Felipe. Boas as suas palavras, que não desconheço, todavia. Acrescentando, naquela época o determinismo geográfico influía mais, mas muito mais que hoje, e o fermento variava de lugar pra lugar. Não é por menos a origem das oktorfestbiers, “lagers” condicionadas a frio em regiões mais frias, onde as cepas mais resistentes às menores temperaturas trabalhavam. Não é por menos que durante o verão passavam em cavernas mais frias, para estarem prontas pro final de setembro, não é?
Sou apaixonado pela alemãs, de longe as minhas preferidas, talvez por algum critério de vidas passadas. Não só as alts como as kölsh requerem fermento típicos, singulares, mas deixando o amor de lado, convenhamos, existem cepas muito mais complexas em produtos e sub. As alemãs, via de regra, regulam-se mais pela discrição, pelo menos é esta minha opinião. As kolshs são assim, tal qual as alts. Maravilhosas pela simplicidade, creio.
Abraço,
Botto
Com certeza. Tanto as Alts quanto as Kölschs, embora necessitem de cepas extremamente específicas em sua fabricação, não se fazem tão presentes na cerveja, principalmente em subprodutos da fermentação.
Você já fez uma Alt?
Tenho muita vontade em fazer uma Alt. Acredito que a única oportunidade de se tomar uma legítima (ou o mais próximo do legítimo) Alt seja fazendo-a em casa, já que desconheço qualquer marca alemã que seja vendida no Brasil.
Felipe.
Já fiz uma Alt, sim, Felipe. Ficou boa, mas não tanto quanto desejava, em razão de na época não contar com um fermento apropriado. Hj é mais fácil, podendo nós adquirir junto da Wyeast ou White Labs o fermento certo pro estilo.
No Brasil temos a Alt da Bamberg, de Votorantim, SP, que é bastante boa.
Quanto as Kölsh, estou com um fermentinho específico pro estilo. Vou propagá-lo e em breve estarei tentando a sorte, hehehe.
abraço,
Botto