Longe de querer esgotar a discussão, escrevo este artigo muito mais pra instigar os leitores à reflexão, pra que dêem suas opiniões, e debatendo favoreçamos, quem sabe, ao clareamento das idéias.
Vocês já viram ales bock? Já ouviram dizer que a tripel Karmeliet é tripel por contar em sua receita com três tipos de maltes ou de grãos? Posso fazer uma tripel lager, com três maltes? Uma bock dubbel seria o mesmo que uma doppelbock?
Aposto que muitos de nós já ouvimos tais perguntas, por vezes até as fazendo, sem contudo chegarmos a nenhuma conclusão definitiva. Eu sou um dos que pensaram bastante sobre o assunto, e vira e mexe sou perguntado a respeito, mas confesso que morro de dúvidas, e só me arrisco a dizer que tal imbróglio é devido principalmente por confusão entre as escolas cervejeiras alemã e belga. Explico, sucintamente, ou nem tanto:
A escola alemã se caracteriza pelo tradicionalismo e quadradismo, não aceitando ela muitas inovações, seja de ingredientes, de métodos de produção ou de estilos. Daí até hoje a eficácia da Reinheitsgebot, Lei de Pureza Alemã, que desde 1516 preconiza que a cerveja deve conter apenas água, malte e lúpulo. A única modificação nesta lei, até os dias atuais, foi a inclusão do malte de trigo. Reparem que a importância do fermento é esvaziada, e não é de se estranhar que as cervejas alemãs têm em suas mais marcantes características o malte e o lúpulo, não sendo muito determinantes os fermentos, na maioria neutros, produzindo cervejas pouco esterificadas. Não estou aqui desmerecendo a tradição e cultura cervejeira alemã, o que seria impossível pra mim, até porque é a minha predileta, mas todos sabemos que ela é a mais conservadora de todas. Os estilos clássicos da escola germânica também são poucos, se comparados com outras escolas, e de fácil compreensão e memorização: entre outros, dos mais famosos, de ale temos as Weizen, a Düsseldorf Altbier e a Kölsch, enquanto que de lagers temos o German e Bohemian pílsen, munich dunkel, Schwarzbier, oktoberfest, vienna, Helles bock, tradicional bock e doppelbock, sendo esses três últimos os que por ora nos interessam. Falemos deles, então.
Todos os três são lagers e bocks, residindo a diferença, principalmente, no extrato original. Para aqueles que não sabem, coloquialmente, o extrato original (OG) mede a quantidade de açúcares presente no mosto cervejeiro, mistura açucarada resultante da extração dos açúcares presentes no malte da cevada, antes de se iniciar a fermentação. Via de regra, quanto maior o extrato original, maior será o teor alcoólico da cerveja, por conter mais substrato pro fermento transformar em álcool e CO2.
Se perguntarmos pra um simples alemão, então, qual a diferença entre uma bock e uma doppelbock, de cara ouviremos que a doppel é a mais forte, mais alcoólica. Se a pergunta for qual a diferença da Helles bock pra tradicional, já não ouviremos isso, mas que a helles, como diz o nome, é clara, mais clara que a bock tradicional.
Até aqui ótimo, não havendo dúvida quanto a nada até agora dito, sendo consenso geral, embora outras peculiaridades dos estilos não aqui citadas também existam.
Então tranquilamente podemos dizer que a diferença mais marcante entre a Helles e a Tradicional bock é na cor, sendo a primeira mais clara, enquanto que em relação às doppelbocks são elas mais fracas, menos alcoólicas, todas cervejas fortes de baixa fermentação.
Passemos então pra escola belga e suas Strong ales.
A escola belga é tão tradicional quanto a alemã, mas muito mais criativa que esta. Nela não há limitação de qual matéria prima usar, daí o uso de especiarias, coentro, cascas de laranja, frutas, aveia, entre outros tantos mais, além do malte de cevada, lúpulo, água e fermento. Menciono aqui o fermento, diferentemente do que fiz quando falei da escola alemã, porque o fermento pra escola belga, no meu entender, é o maior dos seus diferenciais, por ser o responsável, juntamente com as incontáveis combinações de matérias primas, pela complexidade de aromas, fénólicos, cravo, de ésteres, abacaxi, maçã, banana, frutas secas, ameixa, laranja, damasco, …, e muito mais aromas das cervejas belgas.
Diferentemente da alemã, as cervejas belgas quase todas são de alta fermentação, ales, e, pra ser do contra, poderíamos citar a Stella Artois, talvez, e alguma outra, mas pra isso fazendo uma enorme força pra lembrar.
As Strong Ales Belgas, assim como as Bocks, também são subdivididas em alguns sub-estilos, de acordo com o extrato original, sendo que, neste estudo comparado, nos ateremos a três apenas, as mais famosas, a Belgian Blond Ale, Belgian Dubbel e Tripel, traçando ao final um paralelo com Strong Lagers Alemãs.
Assim como a diferença entre a Helles Bock e a Tradicional Bock reside na coloração menor da primeira, assim se diferencia a Belgian Blond Ale da Belgian Dubbel. Segundo o BJCP, ambas possuem a mesma OG, extrato original, e são mais fracas, menos alcoólicas que a Tripels.
Mas não param por aí as coincidências.
Se formos comparar uma a uma, veremos que há muito mais em comum entre os estilos alemãs e belgas, pautando-se as diferenças mais no tipo de fermento, Lager x Ale, e no país de origem, do que qualquer outra causa.
Vejamos os quadros abaixo, cujos dados foram retirados do BJCP:
Seriam estas coincidências apenas, ou muita falta de criatividade das escolas belga e alemã pra delimitarem densidades originais pras suas cervejas fortes?
Já até vislumbro aqueles que me acusarão do uso de sofismas, pra talvez explicar o que penso, mas todos concordamos que tanto os termos dubbel e tripel, quanto bock e doppelbock, definem-se pelo extrato original. Tá bom que não somente por ele, mas principalmente. E mais, todos são estilos de cervejas fortes, alcoólicas, e, pra contrabalancear, mais encorpadas também.
Acredito que a grande confusão seja originada por uma disputa velada entre as escolas belga e alemã, não pela escola propriamente dita, mas pelos seguidores de cada uma delas. Não é raro ouvirmos de mestres cervejeiros alemães que o termo tripel se relaciona com a quantidade de maltes empregues na cerveja, coisa de belga, quem sabe pra diferenciar do parâmetro de definição por eles utilizado. Por sua vez, ouvimos de cervejeiros belgas que suas cervejas são muito mais complexas que quaisquer outras, e que tripel diz muito mais que apenas a quantidade de extrato original. E no final das contas, como não somos nem de uma, nem de outra escola, acabamos num impasse danado de nomes, quase sempre nos limitando às já consagradas nomenclaturas. Assim, se tiver mais de 6% abv, e for lager, é bock, faltando definirmos qual sub-estilo; se ale e belga for, será uma Belgian Strong Ale, também carecendo de melhor sub definição do estilo.
A briga é pra vida toda, mas sorte que ultimamente vemos quem ousa discordar, como a trapista La Trappe, que embora holandesa e muito mais afeta às cervejas belgas, não se ateve à pinimba e chamou uma de suas ales de bock. Outra que entra neste rol é a famosa Samuel Adams, que também ousou ao chamar sua lager com mais de 10% abv de Samuel Adams Triple Bock, contando ela com 17,5% de álcool por volume.
Só pra contrariar, minha próxima produção será uma Tripel bock, lager, envelhecida num barril de bourbon, e daqui a alguns meses veremos o resultado, hehehe.
Saúde,
Botto